4/11/2006

"O Silmarillion" - JR Tokien (9/10)



O Silmarillion de JR - Tolkien consiste numa colecção de lendas e histórias que relatam um tempo primordial, desde a origem do mundo até ao fim da 3ª era (depois dos acontecimentos relatados no Senhor dos Anéis).
Contém o que se pode considerar o núcleo de toda a mitologia Tolkien que começou a escrevê-lo em 1917 (antes de todos os outros) e continuou sempre a trabalhar nele toda a vida. O filho, Christopher Tolkien, editou-o quatro anos depois da sua morte, em 1977.
Sempre que aplicam "universo" para caracterizar o conjunto ficcional de algum autor como o 'universo becketiano' ou o 'universo paul austeriano', referem-se mais propriamente a uma "atmosfera" semelhante que impregna todos os seus livros, e até a personagens que aparecem em vários.

Em Tolkien, um universo é um Universo.
É aí, em minha opinião, que reside o maior encanto do género de literatura fantástica' de dimensões épicas, mais comum ainda no género ficção científica de que os 6 episódios da saga da Guerra das Estrelas são o exemplo mais conhecido.

Tolkien constrói, com o Simarillion:
Um esqueleto filosófico; a noção de bem e de mal, de mortalidade, de arte.
Um plano espacial geográfico; desenha mapas, dá nomes a rios, montanhas e vales imaginários.
Um fundo mitológico e teológico; cria os seus deuses, que criam os seus seres e a sua história, com valores intrínsecos e particulares.
Uma linguagem e cultura própria; Tolkien desenvolve toda uma linguagem élfica, com variações consoante os povos e as eras, e também cria uma cultura artística de referências próprias.

Garante assim uma coerência narrativa extraordinária num mundo imaginado de raiz, e por raiz, entenda-se, com influências de Shakespeare, Bíblia, Homero, mitologia grega e celta.

Quem faz um romance histórico tem a história da humanidade para se situar e fazer investigação por forma a dar textura palpável ao contexto de uma história.

Tolkien faz romances históricos com O Hobit (10/10) ou a trilogia do Senhor dos Anéis (10/10) num contexto histórico que ele próprio cria. São esses romances o fruto do seu génio e estão, curiosamente, no meu ponto de partida literário, contando-se entre os primeiríssimos livros que li e de que, até hoje, me lembro do impacto tremendo que tiveram em mim.

O Silmarillion, mais adulto e contido, é um trabalho que resulta da recolha e organização de textos de um artífice paciente e dedicado, escritos ao longo da longa vida de Tolkien, mas sempre cheios de fantasia e imaginação, como se fora uma criança a escrevê-los.

Depois de apresentado o livro, irei abordar algumas ideias filosóficas e teológicas do universo de Tolkien.