4/11/2006

Silmarillion, ordem e caos.

Curioso, tendo terminado o Silmarillion, calhou ver este texto de JPP, no Abrupto:
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: HOMENS, NAVIOS E SOCIEDADE

Recomendo a sua leitura prévia completa., mas ficam aqui dois parágrafos que julgo exemplificativo do que JPP diz a propósito de um filme de guerra ingles de David Lean e Noel Coward :

«dentro do navio e fora dele o sistema de convenções permanece intacto. O comandante sabe de cor todos os nomes da sua tripulação, de que tem que cuidar até ao limite da sua vida, mas entre ele e os seus marinheiros há deferência e respeito, há hierarquia»

«Nenhum americano ou francês poderia fazer este filme sem que aparecessem dois sentimentos(…) os americanos não deixariam de retratar a pulsão democrática para cima (…) e os franceses não deixariam de ridicularizar os seus nobres,»


Bom, não conhecendo a escrita e as opiniões de JPP poderia ficar intrigado sobre se é um defeito que aponta aos ingleses, ou antes uma virtude, mas como conheço e todos conhecemos, suspeito que é uma virtude

De facto, já me tinha apercebido desta tendência para admirar autoridade e a hierarquia em Joseph Conrad, um dos meus escritores preferidos e em Tolkien.

Falemos de Tolkien.
Em Tolkien há reis. Reis que são reis por direito divino e inquestionável. Reis que são bons e justos e outros que são maus e tirânicos. Mas, mais do que reis, há uma hierarquia de raças. Existem elfos (superiores), anões (inferiores), orcos (muito inferiores), homens (assim assim) e existem imortais, os valar, que são uns deuses na terra, embora não intervenham directamente, a não ser que estejam para aí virados, um pouco como os deuses gregos.

As gradações de hierarquia em longevidade e saber, são mantidas rigidamente. A convivência pacífica de povos diferentes é boa, e é sempre vista como proveitosa, pois os elfos ensinam aos anões a arte das jóias e estes aos elfos a arte do ferro.

Em todo o universo tolkiano, o mal estava previsto logo à partida, e as destruições e cataclismos sucedem-se, sempre com uma primavera subsequente, como se fossem o curso normal da vida. O que diria Voltaire, esse… esse… francês, se lesse Tolkien?

Em Tolkien, a raiz de todo o mal do mundo são a ambição de transgredir a própria condição inferior ou mortal, e a falta de memória da história.

Melkor (ou Morgoth), aquele que é responsável pela origem do mal, ficou com ciúmes de Yavanna e desafinou no canto primordial, procurando instaurar a desordem no coro de vozes.
O mal não tem existência física, propriamente dita. Nunca, ou raramente, ataca pela força bruta contra um adversário forte. Lança antes uns contra os outros, irmãos contra irmãos, aliados contra aliados, pela palavra hábil de Sauron que toma várias formas (belo e honrado conselheiro, morcego etc.), ou, depois da semente do mal estar plantada, do ciúme, da inveja, da cobiça, da humilhação ou do orgulho desmedido.

Em Tolkien, a característica mais “prezada” é a nobreza de sentimentos, a fidelidade e a coragem. E há sempre “desastre” quando alguém não cumpre a palavra.

No entanto, e antes que se pense que Tolkien é uma espécie de conservador bacoco (como já ouvi rotulado o grande Joseph Conrad), saiba-se que em todas as classes há heróis e maçãs podres. Aliás, o maior feito de toda a história do Silmarillion, e da Terra Média, foi conseguido por Beleg, um simples homem, que por paixão a uma elfa filha de reis, conseguiu a tarefa impossível de roubar um silmaril da coroa de melkor. Tão grande foi a sua coragem, que viajou para a ilha dos deuses valar, à semelhança do que vemos Frodo fazer no fim da saga do Senhor dos Anéis.

O homem é o ser mais facilmente corrupto de todos.

Questiona duramente a sua condição de mortal porque existem deuses imortais a partilhar a terra com eles.
O homem torna-se temeroso da morte e constrói túmulos e conserva-se depois de morto (referência aos faraós) e fica obcecado pela reencarnação (uma das críticas interessantes e subtis às religões dos nossos dias).

Como se torna impaciente, quer viver a vida o mais rápido possível, cometendo excessos, e adoece, o tempo de vida encurta, e o tempo de vida, passa-o temendo o fim, com medo, numa contínua esquizofrenia.

Recorde-se que, de acordo com a cronologia, estas acções ocorrem num tempo muito anterior ao início do mundo como o conhecemos e que termina no fim do Senhor dos Anéis, com a era do Homem, depois deste ter desafiado os Deuses que lançam sobre eles um dilúvio e encurvam a Terra, para que mesmo navegando, os homens voltem sempre ao local de partida.

É credível, digo-vos, bastante credível. O que é certo, é que tal trabalho de dramas épicos apresentados de forma serena, maturada e límpida, em que os indivíduos são tudo e as acções individuais podem mudar o mundo, só poderia vir da terra que já nos deu o McBeth e o James Bond.