Contos Inacabados - JR Tolkien

Estes contos inacabados, reunidos num único livro, são um excelente vislumbre sobre o método e vida de Tolkien. Não são uma biografia, longe disso, são esboços (alguns com 100 páginas ou mais) de histórias que estão incluídas, de forma muito resumida, no Silmarillion, e que seriam a génese do que poderiam ser outros romances como o Senhor dos Anéis, Hobit ou Tom Bombadill.
Mas são esboços completos, e dificilmente se sente um corte abrupto no fim dos textos dos mesmos porque estão incluídos no fio condutor do Silmarillion. Ou seja, são raras as vezes em que efectivamente, não se sabe como a história iria acabar no fim. Falando de métodos, Tolkien tinha claramente uma estrutura macro (o Silmarillion) e depois desenvolvia pormenores na história em histórias cheias de magia e personagens ricas, como toda a trilogia do Senhor dos Anéis. O filho, que organizou estes textos ao longo de dois anos, afirma que o pai adorava contar e voltar a contar a mesma história de formas diferentes.
Tolkien pai opunha-se à publicação destes textos durante a sua vida, dizendo que o objectivo final do seu trabalho eram os livros completos, e não pedaços soltos de prosa. Sentia-se acossado pelos fãs das suas sagas, que lhe exigiam, em numerosas cartas (assustadoramente numerosas como o próprio as classificou) pormenores sempre mais completos e científicos da ficção que ele próprio criara. Botânicos escreviam-lhe para que ele elaborasse mais sobre as flores da Terra Média, linguistas pediam-lhe palestras sobre a linguagem dos elfos, antropólogos pediam-lhe mais detalhes sobre os costumes dos anões etc.
Tolkien, ao escrever, tinha consciência, sempre, de criar uma ficção o mais real, formalmente perfeita e apelativa possível para os leitores. Era o seu propósito encantar o leitor, e não misturar a sua própria existência com a de um universo a que, pelos vistos, era mais do que ficção para os entusiastas.
Aliás, parte dessa ficção foi escrita em plena II Guerra Mundial, mesmo durante bombardeamentos alemães, nas costas de manuais de procedimentos militares. Essa nota de bem contra um mal que parece impossível de derrotar, da necessidade de coesão entre os povos, passa linearmente para o mundo de fantasia que Tolkien criou.
Poderemos censurar o filho pelo aproveitamento comercial, apesar de detalhadamente anotado e explicado, de textos que Tolkien considerava imperfeitos ou redundantes.
Mas a história da literatura está cheia de bons livros que por vontade própria dos autores nunca sairiam de uma arca coberta de poeira. Estes Contos Inacabados, serão interessantes apenas para os aficionados e conhecedores de Tolkien.
Não deixa de ser encorajador ver que ele também tinha dúvidas, também escrevia 3 finais diferentes e rejeitava-os a todos, também olhava para o seu próprio trabalho com desdém crítico impiedoso, e também trabalhava em histórias ao longo de toda uma vida inteira, sem as conseguir acabar.